terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A imagética da Transfiguração: um passeio pela obra onírico-poética de Geog Trakl




"Amo seus poemas mesmo sem nunca ter chegado sequer a entendê-los. É justamente nisso que consiste o verdadeiro sinal de sua genialidade". Com essas palavras Wittgenstein declarou sua admiração pela poesia do austríaco Georg Trakl (1887/1914), considerado por muitos como um dos mais importantes poetas do século XX. Poeta que teve entre admiradores confessos Rainer Maria Rilke e Martin Heidegger, que o define como um representante genuíno da poesia que desvela e funda o ser perdido no meio do entulho de discursos vazios.
A apropriação de um modo particular do uso da linguagem é um expediente a favor da expressão do pensar e do sentir do poeta que faz uso da metáfora, montagem e contra-senso como instrumentos os mais básicos de sua obra. Esses elementos a definem e só através deles é que o autor se realiza como poeta. Sua obra é fundamentalmente permeada pelo não-dito, apontando para o indizível e para a tentativa da expressão de aspectos não contempláveis pela linguagem comum, seja pelo alcance dessa linguagem, seja pela proibição implícita da exposição clara de alguns dos conteúdos que a justificam. Foi nessa busca de apontar para o indizível que Trakl aprimorou em sua breve vida um modo específico de expressão, colocado posteriormente na vanguarda do modernismo.
Interessa-nos nesse trabalho delinear como a forma de expressão particular de Trakl considerada intencionalmente obscura, é o fruto da impossibilidade de alçar uma série de experiências e afetos reais de sua vida através do discurso lógico e linear. A metaforização e a montagem são expedientes para tratar do não-dito, trazendo a tona imagens evocativas e reminiscências que só deixam perceber o seu sentido na consciência do leitor de um modo implícito, invocando, contudo, de um modo incisivo o núcleo da afetividade.
Acreditamos que em certos termos, a “criptografia imagética” no poema de Trakl funciona numa lógica similar à da produção onírica, onde as imagens sintetizam um universo de experiências e sensações, muitas delas carregadas de conteúdos angustiantes e perturbadores. A liberdade criativa do poeta permite a invocação de reminiscências e afetos infantis de ordem incestuosa e só através dessa criptografia é que ele consegue acessar a carga afetiva da experiência, sem, entretanto, explicitá-las. Como leitores, somos tragados pelo universo onírico-poético que se abre diante de nossos olhos, percebendo nele a expressão mais fidedigna da vivência do momento, captada por uma alma sensível e assombrada por fantasmas internos e pela inadequação à vida e ao mundo dito real. Por isso é que é possível amar essa poesia sem, entretanto, compreendê-la.
Mais que uma declaração, a colocação de Wittgenstein soa como uma confissão desconcertante. Uma confissão comum a todo aquele que se atreve a penetrar na obra do autor e que percebe, cedo ou tarde, a cada frase lida, a cada imagem evocada, que se está diante de uma espécie de encantamento peculiar e perturbador. O encantamento de tornar-se cada vez mais próximo da força imagética e diametralmente mais distanciados da clareza dos sentidos da obra. É uma obra que frustra as expectativas dos incautos que esperam qualquer feixe de luz e entendimento que possa surgir, explicando o sentido daquilo que dela se percebe. É sobre essa obscuridade fundamental da obra de Trakl que Wittgenstein nos fala. Diante dela vemo-nos pouco a pouco envoltos por uma penumbra narcótica, lançados à deriva nas águas de imagens oníricas que se apresentam numa sequência de cenas que simplesmente surgem sem prestar qualquer reverência às exigências formais do discurso linear.
O surgimento das imagens oníricas na mente do poeta, antes de uma busca racional e criteriosa de imagens metafóricas adequadas à construção do poema, parece ser a vivência de um estado onde as imagens surgem e falam por si no momento de sua eclosão. Como se realidade e os sonhos enredados um ao outro se transmutassem num terceiro estado de natureza crepuscular donde sua sensibilidade é imersa. Nesse estado sua alma torna-se um nascedouro de imagens das quais nem ele mesmo consegue conceber o sentido. O poema é um instrumento que exorciza o cortejo de imagens plasmadas. Entendemos que é por essa razão que Trakl sempre retorna à poesia, para reencontrar-se de uma maneira totalizante com experiências afetivamente significativas, e que o movimento de ruptura com a “realidade” através do poema e das drogas, diz respeito justamente a busca pela ipseidade diante de um mundo fragmentado e opressor. No poema “Três Sonhos” Trakl nos diz:

Vi-me num sonho de folhas caindo
De lagos escuros num bosque perdido,
De tristes palavras ecoando _
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

Vi-me num sonho de estrelas caindo,
De preces chorosas num olhar ferido
De um sorriso que vinha ecoando,
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

Como estrelas caindo, folhas tombando
Assim me via num vai-e-vem perdido.
Eternamente esse sonho ecoando_
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

Trakl dizia ter um “olho que sonhava continuamente imagens mais belas do que qualquer realidade”. Nesse estado crepuscular ele é tomado por um cortejo de visões oraculares surgidas “como estrelas caindo, folhas tombando”. A floresta, o bosque, o crepúsculo, o inverno e o outono figuram constantemente em sua obra. Como leitores, somos tragados por essas imagens até uma realidade que é marcada pela angústia, melancolia e pelo desespero. Os elementos da natureza traduzem estados da alma. O poeta caminha ébrio, perdido nas sendas escuras de um bosque outonal e são palavras tristes as que ecoam. A falta de integração da experiência é um elemento que catalisa a sensação de desespero. É a própria experiência do absurdo e da contingência. O desespero é sempre um afeto acompanhado pela impossibilidade de integração de sentido da experiência e é assim que ele se apresenta na obra: silencioso, como olhos que o esgueiram em suas caminhadas soturnas, como “arvores atrofiadas que fitam inertes ao longo do muro negro”. Árvores infladas de medo donde “o espírito do mal observa com mascara prateada” (De profundis).
Herdeiro de homens como Baudelaire, Rimbaud, Dostoievski e Kiekergaard, Trakl foi afetado como eles pelas experiências fundamentais da subjetividade de sua época. Seus poemas revelam o homem do século XX, insignificante frente a uma natureza demoníaca e a uma civilização prestes a se descobrir dotada de um poder extraordinário de voltar-se destrutiva contra si mesma. Ainda no poema escrito “Três Sonhos” ele parece prever o “apocalipse” iminente:

No escuro espelho de minh’alma
Há imagens de mares nunca sentidos,
Terras tristes de trágicas visões,
Esvaindo-se em azuis indefinidos.

E o poço negro que é minha alma
Gerou imagens de noites tenebrosas
(...)
Vi cidades pelo fogo consumidas
E o cortejo de horrores pelo tempo fora,
E muitos povos a pó ser reduzidos
Perder-se tudo no fundo da memória.

Seus poemas formam parte significativa do movimento expressionista que perdurou entre 1910 e 1930. Poetas como Georg Heym, Georg Trakl e Ernest Stadler foram afetados em sua sensibilidade pela angústia do indivíduo frente às grandes mudanças que o século nascente trazia. Os poemas pré-expressionistas são como missivas que revelavam uma intuição que rondava a mente de alguns dos homens mais sensíveis de sua época. Talvez a imagem de uma nuvem negra: em breve a humanidade se assombraria ao ver a destruição e proporções industriais da Primeira Guerra Mundial. Morto aos 27 anos, Trakl atravessou em sua breve e turbulenta vida todas as experiências mais fundamentais de sua época, o período chamado fin de siècle. Sua vida que teve como plano de fundo o ápice e o declínio da dinastia dos Habsburgs, a virada do século XX e a eclosão da primeira grande guerra mundial. Sua obra reflete em fragmentos caleidoscópicos, a vida numa época profundamente marcada pela decadência das estruturas sociais e pela instabilidade em relação ao futuro, mas, que por outro lado também viu nascer uma série de inovações artísticas e culturais trazidas por seus conterrâneos como Freud, Mahler, Wittegenstein e Klimt. A Guerra foi particularmente traumática para Trakl, sendo decisiva para o seu auto-extermínio.
Trakl nasceu em 3 de Fevereiro de 1887, em Salzburg, noroeste da Áustria, numa Família de classe média alta, filho de Tobias Trakl, um negociante de ferro de origem protestante e Maria Catharina Trakl, burguesa católica que colecionava antiguidades e amava música e a arte. Durante sua infância Maria Trakl fazia uso costumas de ópio e era considerada emocionalmente instável. Como resultado, ele desenvolveu desde cedo uma personalidade reclusa e problemática, crescendo isolado das outras crianças de sua idade, tanto que aos treze anos, após uma série de reprovações, desiste de escola, carregando o conceito dado pelos professores de ser um aluno misantropo. Talvez um dos primeiros sinais de sua fragilidade emocional.
A infância foi marcada por uma espécie de relação de natureza incestuosa com a sua irmã predileta. Não há nenhum registro em sua biografia que indique qualquer outra relação afetiva em sua vida que fosse tão significativa. Décadas depois o próprio Trakl dirá que “Gretl” (Margaret) foi o seu grande amor. É impossível saber maiores detalhes dessa relação, as correspondências entre os dois foram destruídas. Sabe-se apenas que ambos dividiram o amor pela música, as primeiras experiências precoces com drogas (Álcool, Clorofórmio) e talvez, as primeiras experiências eróticas. A figura de sua irmã estará presente em vários poemas seus como "À Irmã", em versos representando a figura da "amada", ou, por exemplo, na figura da "imagem refletida no espelho" (doppelganger). No poema abaixo, as imagens metafóricas de uma fera e de nuvens negras parecem prenunciar um desejo proibido, ele se vê retornando ébrio ao bosque onde encontrará o “sorriso breve” de sua irmã. Como faz com as estrelas sobre o firmamento, a escuridão da noite sempre revelará a imagem da irmã, a de “sorriso breve”, aquela a que “Deus arqueou as pálpebras” e “cujas estrelas a buscam de noite” (À Irmã). Vários momentos, pontilhados por toda a sua obra, como no poema exposto abaixo, nos permitem sugerir que foi na poesia, no álcool e no ópio que ele buscou as reminiscências desse afeto infantil que conservou por toda a vida.

Crepúsculo Espiritual

Silenciosa na beira do bosque
Encontra-te uma fera escura;
O vento da tarde esvai-se na colina,

Aquieta-se a queixa do merlo,
E a voz suave do outono
Silencia entre os juncais.

Sobre negra nuvem
Percorres ébrio de papoula
O tanque noturno,

O céu estrelado.
A voz lunar da irmã sempre ressoa
na noite espiritual.

Em 1914, irrompe a Primeira Grande Guerra e Trakl decide tornar-se voluntário servindo na Frente Leste. Na noite de 24 de Agosto de 1914 é enviado para a cidade de Grodek na Polônia, com a patente de oficial farmacêutico sob o comando de generais incompetentes. Em Novembro, eclode a violenta batalha de Grodek, e Trakl, na função de oficial médico, vê-se sozinho, em condições precárias, sem os devidos instrumentos e sem ajuda de uma equipe medica, sendo responsável pela vida de noventa homens mutilados e agonizantes. Por conseqüência de suas experiências traumáticas na guerra, seu espírito já debilitado é abalado profundamente e ele sofre um colapso nervoso, seguido de nova tentativa de suicídio com uma arma de fogo. Foi por isso encaminhado para o setor psiquiátrico do Hospital Militar da Cracóvia. Lá é diagnosticado como esquizofrênico e posto numa cela com pacientes delirantes.
Durante o tempo que esteve sob observação, escreve os seus últimos poemas 'Grodek' e 'Klage' que são dados a Ficker durante uma visita deste para publicação na revista Der Brenner. Ambos poemas pintam quadros profundamente melancólicos da guerra que Trakl presenciou. Uma semana depois, apenas três meses depois do início da Guerra, em 3 de Novembro de 1914, Georg Trakl consuma o suicídio com uma dose letal de cocaína que o leva a uma parada cardíaca fulminante. Sua morte aos 27 anos toma de surpresa o filosofo Wittgenstein, seu benfeitor, que agendara para alguns dias depois uma visita humanitária com o objetivo conhecê-lo pessoalmente e encorajá-lo. Sua irmã, Gretl, a essa altura também viciada em cocaína e infeliz com um homem mais velho, mata-se três anos depois de um modo similar.
Seus dois últimos poemas mostram como a experiência da guerra foi traumática, ferindo qualquer esperança no destino da humanidade. Diante dos “recifes medonhos” da realidade e da lógica maquínica da guerra, ele prefere a morte, a “onda fria da eternidade”. Talvez o refúgio dos sonhos, das drogas e da poesia já não fosse suficiente. Ele deixa para a “irmã de imensa melancolia” sua última mensagem:

Sono e morte, as águias sombrias
Rondam-me a fronte a noite inteira:
A áurea imagem do homem,
Engole-o a onda fria da eternidade.
Em recifes medonhos
Rompe-se o corpo de púrpura.
E queixa-se a voz escura
Sobre o mar.
Irmã de imensa melancolia,
Olha: um barco assustado naufraga
Sob estrelas,
Na face calada da noite.
(Lamento)

Desde uma idade precoce e por toda a vida de Trakl, a droga e o álcool estiveram presentes. Talvez a única fuga de um mundo interno e externo em desagregação. Tanto que conduziu a sua irmã que tanto amou, condenando-a, também, a uma vida de inadequação que a levou posteriormente ao suicídio. Rilke sugeriu uma semelhança entre o modo como a poesia nascia em Trakl e o modo como um sonho pode surgir, parece de fato haver uma busca de ascensão ao mundo dos sonhos através do uso da papoula. Na poesia Trakliana, a realidade e o sonho fundem-se num entrelaçamento de ontologias que só é possível na e pela da poesia. De algum modo o uso de drogas concorre como significativamente para a criação dessa poesia, para ascensão ao estado de espírito necessário à sua produção imagética. Seu biografo Clemens Heselhaus (Carone,1985), procurou definir as metáforas de Trakl com o termo “Drogentrambilder”,sugerindo que o efeito das drogas participaria da gênese da poesia. Na medida em que, em conseqüência delas, emergem, como no sonho, uma alternância caleidoscópica, reflexos imagéticos da vigília e da memória, que pode contribuir na construção de sua fanopéia.
Hersalhaus, nos diz Carone (1985) via nesse fenômeno um modelo para descrever os “poemas de seqüência de imagens” em geral. É de fato fundamental, na abordagem de Trakl, considerar como objeto central da poesia o mundo dos sonhos. Esses sonhos provocados por entorpecentes forneceriam o material de imagens mentais a serem manipuladas na elaboração das montagens do poema e, com eles, Trakl tentou criar a ilusão de um mundo, no qual ele parecia estar mais integrado, o mundo de seus sonhos e fantasmas. Como diria Susanne K. Langer (1981) “o poeta usa o discurso para criar uma ilusão, uma pura aparência que é uma forma simbólica não-discursiva. Ele produz uma ilusão por meio de palavras – ele cria uma ilusão tão completa e imediata quanto a ilusão de espaço criada por alguns traços no papel, a dimensão de tempo em uma melodia, o jogo de poderes erigido pelo primeiro gesto de um dançarino”. A ilusão que Trakl quis criar foi o seu próprio universo onírico-poético.
Carone (1985) nos coloca que, se em certo termo a metáfora é a junção de dois elementos incongruentes que indicam um “terceiro termo” que deles se diferencia, a montagem também pode ser compreendida como metáfora. Uma vez que a ela se baseia na sobreposição de imagens incongruentes que tendem a indicar um terceiro termo que “salta” dessa colisão na consciência do leitor. O cineasta russo Eisenstein, ao lapidar o conceito de montagem no cinema nascente no início de século XX, ressaltou os princípios de formação dos ideogramas japoneses, mostrou que o ideograma é uma combinação de signos capaz de produzir um terceiro elemento de dimensões e graus diferentes. Cada signo tem uma significação independente, mas, combinados entre si, dois ou mais signos são capazes de produzir um terceiro elemento de natureza diversa. Os signos articulados são capazes de criar um novo conceito. O ideograma, portanto, é uma fusão de hieróglifos separados; assim, o conceito de dor, por exemplo, é produzido através da fusão de dois hieróglifos que separados representam, um uma faca e outro, um coração. O ideograma é uma metáfora visual engendrada por uma montagem de hieróglifos. A montagem e a metáfora nesse sentido seguem a mesma lógica: a simples combinação de dois ou mais elementos imagéticos de ordem diversa, proporcionando a representação de um significado de outra ordem psicológica, um significado que “salta da colisão de signos ou imagens justapostas”.
Bachelard (?) nos faz compreender que no sonho os tempos perdem sua aparente coordenação e se expõem em sua complexa pluralidade. No estado de vigília, a realidade é um motivo de ordenação. Sonhar é desordenar os tempos superpostos. O tempo nesse sentido é essencialmente dialético, não se processa em continuidade, é antes, uma série de rupturas. O sentido de duração só existe porque pressupõe esforço que organiza os diferentes tempos numa cadeia de superposições. O tempo é plural e sua estrutura complexa remete-se antes a uma espessura que a uma continuidade. A poesia de Trakl, nesse sentido, se faz também de reminiscências onde o infantil se convulsiona.
Durante a “noite” _ representação do estado que deixa luzir os fantasmas e as estrelas _ “quando a água desce às urnas funerárias” Trakl retorna aos quartos da infância, aos passos do pai na escada, às brincadeiras de infância sob o velho carvalho, aos sinos distantes e ao cheiro do vinho castanho com o qual se embriagava na em companhia da irmã. Ele sempre volta sozinho ao bosque noturno, ébrio de papoulas (truken von mohn) e as “mãos que tocam a idade das águas azuladas” trazem de volta a noite fria e insone da infância, ele volta a “tocar as faces brancas das irmãs” (Helian).
Carone Netto (1985) nos explica que em Trakl, “as imagens isoladas do poema funcionam como as “tomadas” ou os fotogramas montados num filme, articulando cenas e planos cujo significado seria aferível pela forma em que essas unidades colaboram ou colidem umas com as outras na consciência de quem lê o poema.” A poética de Trakl, por sua força imagética, antecipou conceitos de montagem visual, posteriormente apropriados e desenvolvidos na arte moderna, de um modo mais radical, no cinema de arte e na pintura surrealista. Nela, a metaforização é uma condição constitutiva básica, o autor parece sentir necessidade de imagens metafóricas, reconhecendo apenas o amplo uso delas como seu modo particular de escrita.
Alguns críticos sugerem que o desenvolvimento de seus poemas aponta a progressão da desorganização de seu estado psicológico, revelando uma progressiva impessoalidade, tornando-se cada vez mais desprovidos de enunciados na primeira pessoa, o que, em termos estilísticos, será chamado de “objetividade mística”. Na objetividade mística a ausência da primeira pessoa ressalta o fluxo perceptivo do autor. Nesse sentido essa “ausência do eu” torna-se “presentificadora”, uma vez que somos colocados pelo poeta dentro do mais íntimo de sua experiência, na exata linha fronteiriça que concebe as imagens de seu mundo interno e externo. Vivenciamos o cortejo de imagens que desfilam no campo fenomênico da consciência. Vivenciamos o “outono transfigurado” conforme ele o vivenciava. Um trecho do poema abaixo pode exemplificar esse processo:

Há uma luz que o vento apagou
Há uma taberna no campo, de onde à tarde sai um bêbado.
Há um vinhedo queimado e negro com covas cheias de aranhas.
Há uma sala que caíram a leite.
(...)
Há sombras que se abraçam frente a um espelho cego.
(...)
A estranha irmã volta a aparecer nos maus sonhos de alguém
(Salmo)

Ao romper com a estrutura lógica do pensar, Trakl também rompe com a característica mais social de nossa natureza que é a linguagem linear arraigada em nossa alma tanto pela cultura como pela história. Como nos diz Susanne K. Langer (1982): “O inefável pode imiscuir-se em nossa consciência, mas é sempre algo como um hospede temeroso, e nós o admitimos ou recusamos, de acordo com nosso temperamento, com uma sensação de mistério.” Para Carone (1985), o efeito oracular da metáfora e da montagem em Trakl se aguça por conta do elemento de “descontinuidade” em que imagens isoladas e fechadas em si mesmas potencializam a obscuridade dos poemas, remetendo-os a um universo de significações que beiram a total indeterminação semântica. Esse fenômeno intitulado por Carone de “Linguagem do Indizível” sugere a intenção deliberada do autor em tentar nomear algo além da experiência verbalizável pelas formulas do discurso cotidiano, apontando, com sua poética, para as limitações da abrangência da linguagem dita lógica e linear. Nesse sentido, o não-dito é o âmbito e a raiz ontológica da poesia de Trakl.
O poeta usou como recurso, para se livrar de um mundo verbal pré-constituído, a fragmentação da linguagem através da montagem e a manipulação de signos, em sua maioria imagens, buscando uma possibilidade outra da linguagem, que foge às normas semânticas usuais do discurso. Unindo no mesmo sintagma, realidades afastadas para gerar imagens fortes, nascidas na interpretação da colisão destas na mente do leitor. Isso representa um expediente estético que o poeta se utiliza para apontar o indizível de sua experiência. Relacionando elementos conhecidos numa lógica não usual que faz dessa articulação a evocação de coisas que não poderiam ser evocadas ou representadas de outra maneira, porque ainda não existem na linguagem, passando a existir somente no, e a partir do poema. Trakl, segundo esse ponto de vista, foi bem sucedido ao fracassar, pois ele expôs, com seu fracasso em comunicar o indizível, como Wittgenstein, os limites possíveis da linguagem. Expôs a sua maneira, como recurso estilístico donde a ordem ou as relações em que as coisas estão dispostas no mundo empírico, foi desrespeitada no corpo do poema. Esse movimento ressalta o caráter de síntese fundante da linguagem poética. Nasce daí uma “linguagem própria” que produz efeitos que a linguagem comum não é capaz de produzir, e que nos deixa perceber em parte uma “realidade própria” uma “ilusão de vida”, exatamente como esta foi apresentada para Trakl: desconexa, fraturada e ilógica.
Trakl nesse sentido foi um autor que deformou o mundo através da violação dos padrões convencionais de linguagem, transfigurando a realidade e o real de modo a apresentá-lo novo ou recriado. Não se trata mais de uma tentativa de reproduzir o ser, mas de instaurá-lo através da linguagem metafórica ou, como disse Paul Klee, “L’a art ne reproduit pas le visible; il rend visible”. A obscuridade do poeta permanecerá. Permanecerá, porém, como um ato ao mesmo tempo vândalo e redentor, uma tentativa libertária de abertura para o não-dito, uma “metafísica instantânea” que só se dá na e pela poesia.






Referências Bibliográficas:

FREUD, Sigmund. "A interpretação de sonhos" (1900), James Strachey [notas e trad.], in: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume IV. Rio de Janeiro, Imago, 1972

K.LANGER, Susanne. “Sentimento e forma” 1980, São Paulo - SP, Perspectiva S.A.,1980

LUCCHESI, Marco Américo. “Poemas à noite/ Georg Trakl, Rainer Maria Rilke”, Tradução de Marcos Lucchesi. _ Rio de Janeiro: Topbooks, 1996

TRAKL, Georg. “De Profundis e outros poemas”, Cláudia Cavalcanti [Trad.]
São Paulo : Iluminuras, 1994

BARTHES, Roland. “Elementos de Semiótica”, São Paulo: Cultrix, 1992,

ECO, Umberto. “A Estrutura Ausente: introdução à pesquisa semiológica”, 7ª ed. São
Paulo: Ed Perspectiva, 2003

CARONE NETTO, Modesto. “Metáfora e Montagem - Um estudo sobre a poesia de Georg Trakl” São Paulo, Perspectiva, 1974

TRAKL, Georg. “Outono transfigurado: ciclos e poemas em prosa”, João Barrento [trad/org] Assírio e Alvim: Lisboa, 1992

SCHEIDL, Ludwig, “O Pré-expressionismo na Literatura Alemã- Georg Heym, Georg Trakl, Ernst Stadler”, Coimbra – PT, Biblioteca Geral da Universidade, 1985

KON, Noemi Moritz, “Freud e seu duplo: reflexões entre Psicanálise e Arte”, São Paulo-SP, FAPESP, 1996

BACHELARD, Gastón, “A Poética do Devaneio”, Antônio Pádua Danesi [trad] — São Paulo-SP: Martins Fontes, 1988

HEIDEGGER, Martin, “Arte y Poesía”, Buenos Aires: Fondo de Cultura
Econômica, 1958

Um comentário:

Paulo Sposati Ortiz disse...

Conheci seu blog pela Ariane,
que o recomendou.

Estudamos no nosso grupo de poesia
(http://poenocine.blogspot.com/)
Paul Celan, que roubou bastante
do Trakl, não acha?

Seria um prazer tê-lo como leitor
do nosso blog POENOCINE.

Aquele abraço,
Paulo.