quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009







Não é só o que o espelho oferece, é antes, o que ele nos nega ao oferecer. O espelho põe nossos olhos desejosos face a uma espécie de ironia sutil do real. No silêncio que repousa na superfície luminosa, somos atraídos pela promessa de unicidade entre a imagem e a vivência do Eu. Antes que formulemos qualquer pergunta o espelho parece responder: "Eis o que tu és agora". Através da projeção de nossa imagem decodificamos uma geografia do corpo, georgrafia antes impossível. Decodificamos o equivalente à uma metáfora da experiência do momento: a vivência do corpo sensível imerso no mundo; corpo que respira e pulsa, corpo desnudo, púbere... O espelho é um território íntimo. É possessão privilegiada de um Eu que se expande entre as coisas. Em imagem refletida plasma-se toda a carga da memória onde o Eu se põe orientado, contextualizado na linha do tempo e no espaço que o circunda. A ironia começa quando nos damos conta de que aquilo que vemos à superfície é uma mera imagem descarnada, produto de um feixe de luz que pode vir de uma fonte às vezes instável, às vezes constante, às vezes oblícua, às vezes efêmera... É justamente nessa imagem desprovida de várias dimensões essenciais ao ser - desprovida, sobretudo, da dimensão do tato e da consistência que esse sentido confere as coisas - que aprendemos a decifrar e a contemplar a fonte escura a que chamamos "Eu". E acreditamos por um habito do pensar e do ver, que há reflexos mais ou menos fiéis a essa metáfora. Há espelhos isentos de distorções que representam melhor o que somos e há aqueles em que não nos reconhecemos, tamanha a distorção com que nossa imagem é reproduzida. Somos muitas vezes seduzidos pela ilusão de que somos o refletido. A imagem no espelho é, num primeiro olhar, a metáfora perfeita, a crisálida do Eu, onde tornamo-nos por um milagre estranho, objetos de nossa própria contemplação. Mas, ao oferecer sua superfície aberta ao mundo, o espelho nega uma espécie de translucidez que só nos é dada em aproximação quando fechamos os olhos e nos concentramos na vivência do momento; no respirar, no sentir a brisa, nos desconfortos do corpo, nos desejos desse corpo, nas memórias e imagens que surgem na imensa complexidade de estar vivo ("e tudo o que vive pulsa"). A promessa da unicidade desaba ante a mais fundamental das solidões: Percebermo-nos apartados de nós mesmos, percebermo-nos multidimensionais, fragmentados, complexos, visíveis apenas em superfície. O âmago das coisas é sempre nos é negado, sobretudo o âmago de nossa própria imagem. Os olhos no espelho as vezes se dão conta: Há algo de estranho na familiaridade daquela imagem! Algo de estrangeiro que se emoldura em nossa frente todos os dias. O espelho é o profundo mistério que nossas pupilas se cansaram de ver e se cansaram de tentar decifrar. Tudo o que ha nele é a superfície, mera representação bidimensional de algo que só pode vir à tona (se é qe vem à tona) quando fechamos os olhos e mergulhamos na totalidade do fluxo de vivência de sensações do momento. E quase sempre nos apegamos à imagem e a ela prestamos um culto diário. Talvez seja preciso, para mergulhar no Eu, quebrar o espelho e a vaga representação que ele produz, é preciso que narciso se afogue na sua imagem; que nesse ato de pussuir a si mesmo, destrua a imagem na superfície do lago. É preciso se dar conta do vazio dos olhos que se procuram no espelho. Não ha vazio mais enigmático que o dos olhos refletidos que procuram sua alma no espelho. O espelho nos nega a alma ao mesmo tempo que promete desvelá-la e é por isso, talvez, que ele seja é tão sedutor.

5 comentários:

Bruna Regina disse...

Adorei! E que sedução... Talvez depois de fechar os olhos para a abertura das janelas que dão à alma, possa-se fundir nessa doce aventura. Antes disso, o espelho deveria ser abolido (ou utilizado para espelhar os nossos atos mais absurdos?). Talvez o espelho esteja sempre ali, mostrando oque não queremos ver, e é por não querer que não alcançamos oque pode está tão difundido que é nítido, mesmo que no superficial da imagem. Será que se vê oque é ou vê só oque quer?
Lindo texto teu! Vou fazer um blog pra mim também se prometer papear (porque o mais gostoso em escrever, eu acho, é poder compartilhar e encontrar no outro aquilo que é seu, além de ser uma abertura para novos pensamentos... né?)

Bruna Regina disse...

Adorei! E que sedução... Talvez depois de fechar os olhos para a abertura das janelas que dão à alma, possa-se fundir nessa doce aventura. Antes disso, o espelho deveria ser abolido (ou utilizado para espelhar os nossos atos mais absurdos?). Talvez o espelho esteja sempre ali, mostrando oque não queremos ver, e é por não querer que não alcançamos oque pode está tão difundido que é nítido, mesmo que no superficial da imagem. Será que se vê oque é ou vê só oque quer?
Lindo texto teu! Vou fazer um blog pra mim também se prometer papear (porque o mais gostoso em escrever, eu acho, é poder compartilhar e encontrar no outro aquilo que é seu, além de ser uma abertura para novos pensamentos... né?)

Bruna Regina disse...

ps. É a Bruninha, mas o Google tão doidão e fica colocando o nome do meu grupo da faculdade... Enfim.

secasealagamentos disse...

Somos inalcançáveis. Mesmo que fechemos os olhos e vejamos as images disformes e nos acorde os sons inaudíveis da alma, nada além disso saberemos. Nada de nós encontraremos além da dúvida e da contradição. Teu texto é um soco no estômago. Vou passar por aqui vez em quando. Abraço.

secasealagamentos disse...

na verdade o que está ao nosso alcance é a dúvida e a contradição...