Na volta para casa é como se estivessemos de mãos dadas, traço dialogos invisíveis, falo contigo como se estivesse ao meu lado. O céu - a morada de um dragão que me fere os olhos - por ser céu e tão azul, tão repleto de vazios, já não me diz nada. As sombras das árvores deslizam docemente no chão. O silêncio do meu caminho é a capela onde posso encontrar a tua voz mais pura. O céu,os passantes, as casas e a ruas não me vêem disperso e intocável como só os sonhos e as sombras podem ser por entre as coisas. Nada que possa existir me abarca, como me abacaria o teu olhar, o teu sorriso e todos os teus gestos mais simples e cotidianos. E mesmo que o céu ganhasse a densidade salgada do mar sobre mim, nao pertenceriamos um ao outro, brincariamos em silêncio até adormecermos. É que só aprendi a falar as tuas linguas, só cultivei a vocação de aprendê-las. E sei dos teus idiomas mais secretos, sei daqueles que tu mesmo desconheces. Como sabem dos idiomas que repousam na superfície de um lago, as asas da libélula; e sabe da cartografia da pele, o orvalho quente da boca. Sei das tuas línguas como sabe dos idiomas esquecidos e das cidades submersas a voracidade que desperta os amantes; como sabe dos sentimentos soterrados no esquecimento, a essência de certos perfumes; e como só sabe dos olhos fechados do tempo o silêncio imperioso da morte.
Sem palavras, como sabe da hora da fome de um filho a mãe zelosa, sei de tuas vozes mais recônditas. Aprendi pouco a pouco, como o cego que aprende o que se aprende do medo ao tatear a escuridão.
A tua lingua é a minha casa e minha morada e é pra ela que quero voltar. Só tua voz me nutre de sentidos e me acalenta, só ela pode saber da minha febre e acalmar os meus anseios. A voz de teus olhos compreende o meu silêncio e pode zelar pelo meu sono. Ao redor tudo é um abismo no qual serei sempre um estrangeiro.
Sem palavras, como sabe da hora da fome de um filho a mãe zelosa, sei de tuas vozes mais recônditas. Aprendi pouco a pouco, como o cego que aprende o que se aprende do medo ao tatear a escuridão.
A tua lingua é a minha casa e minha morada e é pra ela que quero voltar. Só tua voz me nutre de sentidos e me acalenta, só ela pode saber da minha febre e acalmar os meus anseios. A voz de teus olhos compreende o meu silêncio e pode zelar pelo meu sono. Ao redor tudo é um abismo no qual serei sempre um estrangeiro.
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