Conseguira, enfim, a paz que só a solidão e as suaves manhas de domingo são capazes de oferecer àqueles que vêem a experiência do retiro e da jornada interior como verdadeira companhia. Submerso até os ombros no riacho calmo, seu corpo matutinamente imaculado cercava-se de gelada água. Seus braços mantinham a pequena flutuação e o equilíbrio com movimentos lentos e circulares que deixavam-no sentir nas mãos as diferentes temperaturas da água (mais quente na superfície, mais fria centímetros abaixo). Fora esse único esforço, sentia-se cômodo e reconfortado. Os pés afundavam na áspera e macia areia do leito que se acomodava bem vinda entre os seus dedos. Via nascer os círculos concêntricos das ondulações produzidas pelos seus movimentos que levavam para cima e para baixo o cemitério de minúsculas criaturas que encontraram repouso na tênue linha superficial de seu entorno. Como barcos na orla, que subiam e desciam com a maré sem sair do lugar, jaziam espaçadamente os elementos da minúscula fauna. Gostava de ver flutuarem as armaduras esqueléticas, a arqueológica irrigação das ínfimas asas já desprendidas. Eram estímulos bem vindos à curiosidade quase infante que lhe era cara e que cultivava a todo custo como uma relíquia interior: "a relíquia de saber ver o mundo com olhos novos". Agradava-lhe, sobretudo, a nobreza e o privilégio de, nesses raros momentos, observar e ter consciência apenas.
Acalmava-lhe como quase nada retirar-se do turbilhão de pensamentos e apenas ver; ver o mundo ao seu redor, ver o seu corpo, ver o universo até com olhos fechado e sentir; sentir a água em cada poro, sentir o sol aquecendo-lhe as costas e o rosto, sentir a sua respiração, os seus músculos contraindo e relaxando, deslizando uns sobres os outros, como engrenagem sincrônica no esforço leve da flutuação. Agradava-lhe também o ouvir - desconstruir a sinfonia quase inaudível da natureza, localizar a origem de cada som tangente ao circulo constante de sua própria respiração. Ouvia até os pássaros mais distantes, desejava poder entender a sua linguagem e punha-se a imaginar os diálogos com alegria. Perdia-se nesses devaneios e permitia-se levar.
Põe-se assim nesta manhã, tardando-se a sentir e a estimular à hiperestesia cada uma dos sentidos, realçando os contrastes daquilo que tornava-se paulatinamente o mais abundante dos espetáculos para deleite de sua consciência calma. Fecha os olhos e o sol tinge uma cor avermelhada na escuridão de suas pálpebras. Diz mentalmente: "-Eu sou o centro e a medida de todas as coisas! Eu sou o centro e a medida de todas as coisas!". Concentra-se na repetição mental até que as significações dessas palavras sejam sentidas por completo. Vê com intensidade nova essas verdades há muito proferidas e até então não devidamente refletidas. Jubila-se ao conceber-se o observador das experiências, receptáculo das sensações, pois tem no seu universo a posição central. O universo entra-lhe pelos sentidos e todas as medidas de todas as formas são sempre relativas ao seu próprio tamanho e forma! Deveria honrar, portanto, a profundidade da missão de seu corpo, oferecendo respeito e cuidado ao frágil corpo de proporções limitadas, o receptáculo do Todo. Concebe pela primeira vez que, mesmo sendo pequeno demais ante as forças de natureza, ou grande demais em relação às pequeninas e inanimadas formas ali jazentes, com certeza era ainda o centro e medida de todas as coisas. Aquela era sua morada no Universo. Sente o orgulho de habitar essa posição na ordem das coisas. Sente-se agora como "o ordenador", uma fagulha, talvez, de algo maior que inexplicavelmente tinha o dom, mesmo que limitado, de explicar e por ordem na complexidade infinda do Todo. Pensava nos limites da sua compreensão, tentava imaginar como se dava a compreensão em outros seres. Lembrava das formigas que espalhadas pelo chão da floresta trocavam dados numa linguagem de sinais químicos - sinapse de uma mente difusa e coletiva - reconheciam os relevos do chão e rastreavam a localização das coisas a partir de sua cartografia mágica... Ia perdendo-se nesse devaneios pequenos pensamentos lhe abalam como as brisas abalam a superfície de um lago plácido: "- Sei que os sentidos do meu corpo são o centro de todas as experiências e delimitam as fronteiras de minha existência. Mas e estes? teriam centro? Seriam apenas meros instrumentos de uma consciência que tudo observa e tudo retêm?" Faltava-lhe ainda saber qual era o centro de si mesmo, pois se ele próprio era o centro do universo, dava-se conta agora de que não sabia dizer qual então era o centro de si mesmo. Aquele núcleo parecia-lhe verdadeiramente incognoscível, imaginava-o, porém, como a aranha no centro da teia, na verdade, algo como o olho da aranha no centro da teia. A teia era as palavras e os pensamentos que se ligavam uns aos outros atribuindo a cada coisa, interna ou externa, os seus sentidos e a sua ordem no universo das coisas. Não cria plenamente na metáfora do espelho para definir esse centro, mesmo que essa metáfora fosse a única que sabia e que gostava de usar. Pensava ainda que ao redor daquela forma incognoscível como o olho de um furacão, orbitariam representações que lhe eram trazidas de todos os lados através dos canais da percepção que, em sua soma, configurariam o seu sentimento mais intimo de ser. Configurariam o sentimento de unidade à trama composta de todas as sensações.
Então, era isso afinal, que todas as manhãs ao acordar, via no espelho!? Era essa trama se sensações que associava cotidianamente ao que via nos reflexos das coisas?! A ausência de algo lhe incomodava e, por não conceber o centro, o olho da aranha, o olho do furacão(...), toda a configuração periférica de sensações que se habituara a ver como o "seu eu" tornara-se contingente e arbitrária ao ponto da náusea. Seu "eu" torna-se apenas mais uma das engenhosas conformações estruturais da natureza, um instrumento de algo inonimável. Mesmo a razão e o pensamento pareciam-lhe secundários. Sentia-se como a propagação de círculos concêntricos, sem que pudesse conceber a origem da ondulação. A náusea lhe cresce, ate que num expirar largo, abre os olhos e o clarão invade-lhe trazendo o ofuscamento e uma pequena vertigem. Pára um pouco, deixa seu olhar repousar tranqüilamente e sem a nada se ater na superfície, quando de repente vê próximo de si uma vibração, uma minúscula propagação de ondas provindas de uma pequena efeméride cujas asas prenderam-se na linha superficial do riacho. Fazendo uma concha com as mãos retira cuidadosamente o pequeno ser com a porção de água que lhe envolve, leva-o rápido até a pedra seca mais próxima e despeja o conteúdo delicadamente para não ferir a pequena criatura. Toda água escorre pela pedra e a pequena criatura tomba para o lado com o peso de suas asas ainda embarcadas. Ele então põem-se a assoprar com cuidado as asas para secá-las no intuito de ajudar o sol. Espera para certificar-se que a pequena efeméride conseguira livrar-se do peso excessivo de suas asas e que em breve levantaria vôo novamente. Toma então o caminho de terra que o leva de volta a sua casa.
Acalmava-lhe como quase nada retirar-se do turbilhão de pensamentos e apenas ver; ver o mundo ao seu redor, ver o seu corpo, ver o universo até com olhos fechado e sentir; sentir a água em cada poro, sentir o sol aquecendo-lhe as costas e o rosto, sentir a sua respiração, os seus músculos contraindo e relaxando, deslizando uns sobres os outros, como engrenagem sincrônica no esforço leve da flutuação. Agradava-lhe também o ouvir - desconstruir a sinfonia quase inaudível da natureza, localizar a origem de cada som tangente ao circulo constante de sua própria respiração. Ouvia até os pássaros mais distantes, desejava poder entender a sua linguagem e punha-se a imaginar os diálogos com alegria. Perdia-se nesses devaneios e permitia-se levar.
Põe-se assim nesta manhã, tardando-se a sentir e a estimular à hiperestesia cada uma dos sentidos, realçando os contrastes daquilo que tornava-se paulatinamente o mais abundante dos espetáculos para deleite de sua consciência calma. Fecha os olhos e o sol tinge uma cor avermelhada na escuridão de suas pálpebras. Diz mentalmente: "-Eu sou o centro e a medida de todas as coisas! Eu sou o centro e a medida de todas as coisas!". Concentra-se na repetição mental até que as significações dessas palavras sejam sentidas por completo. Vê com intensidade nova essas verdades há muito proferidas e até então não devidamente refletidas. Jubila-se ao conceber-se o observador das experiências, receptáculo das sensações, pois tem no seu universo a posição central. O universo entra-lhe pelos sentidos e todas as medidas de todas as formas são sempre relativas ao seu próprio tamanho e forma! Deveria honrar, portanto, a profundidade da missão de seu corpo, oferecendo respeito e cuidado ao frágil corpo de proporções limitadas, o receptáculo do Todo. Concebe pela primeira vez que, mesmo sendo pequeno demais ante as forças de natureza, ou grande demais em relação às pequeninas e inanimadas formas ali jazentes, com certeza era ainda o centro e medida de todas as coisas. Aquela era sua morada no Universo. Sente o orgulho de habitar essa posição na ordem das coisas. Sente-se agora como "o ordenador", uma fagulha, talvez, de algo maior que inexplicavelmente tinha o dom, mesmo que limitado, de explicar e por ordem na complexidade infinda do Todo. Pensava nos limites da sua compreensão, tentava imaginar como se dava a compreensão em outros seres. Lembrava das formigas que espalhadas pelo chão da floresta trocavam dados numa linguagem de sinais químicos - sinapse de uma mente difusa e coletiva - reconheciam os relevos do chão e rastreavam a localização das coisas a partir de sua cartografia mágica... Ia perdendo-se nesse devaneios pequenos pensamentos lhe abalam como as brisas abalam a superfície de um lago plácido: "- Sei que os sentidos do meu corpo são o centro de todas as experiências e delimitam as fronteiras de minha existência. Mas e estes? teriam centro? Seriam apenas meros instrumentos de uma consciência que tudo observa e tudo retêm?" Faltava-lhe ainda saber qual era o centro de si mesmo, pois se ele próprio era o centro do universo, dava-se conta agora de que não sabia dizer qual então era o centro de si mesmo. Aquele núcleo parecia-lhe verdadeiramente incognoscível, imaginava-o, porém, como a aranha no centro da teia, na verdade, algo como o olho da aranha no centro da teia. A teia era as palavras e os pensamentos que se ligavam uns aos outros atribuindo a cada coisa, interna ou externa, os seus sentidos e a sua ordem no universo das coisas. Não cria plenamente na metáfora do espelho para definir esse centro, mesmo que essa metáfora fosse a única que sabia e que gostava de usar. Pensava ainda que ao redor daquela forma incognoscível como o olho de um furacão, orbitariam representações que lhe eram trazidas de todos os lados através dos canais da percepção que, em sua soma, configurariam o seu sentimento mais intimo de ser. Configurariam o sentimento de unidade à trama composta de todas as sensações.
Então, era isso afinal, que todas as manhãs ao acordar, via no espelho!? Era essa trama se sensações que associava cotidianamente ao que via nos reflexos das coisas?! A ausência de algo lhe incomodava e, por não conceber o centro, o olho da aranha, o olho do furacão(...), toda a configuração periférica de sensações que se habituara a ver como o "seu eu" tornara-se contingente e arbitrária ao ponto da náusea. Seu "eu" torna-se apenas mais uma das engenhosas conformações estruturais da natureza, um instrumento de algo inonimável. Mesmo a razão e o pensamento pareciam-lhe secundários. Sentia-se como a propagação de círculos concêntricos, sem que pudesse conceber a origem da ondulação. A náusea lhe cresce, ate que num expirar largo, abre os olhos e o clarão invade-lhe trazendo o ofuscamento e uma pequena vertigem. Pára um pouco, deixa seu olhar repousar tranqüilamente e sem a nada se ater na superfície, quando de repente vê próximo de si uma vibração, uma minúscula propagação de ondas provindas de uma pequena efeméride cujas asas prenderam-se na linha superficial do riacho. Fazendo uma concha com as mãos retira cuidadosamente o pequeno ser com a porção de água que lhe envolve, leva-o rápido até a pedra seca mais próxima e despeja o conteúdo delicadamente para não ferir a pequena criatura. Toda água escorre pela pedra e a pequena criatura tomba para o lado com o peso de suas asas ainda embarcadas. Ele então põem-se a assoprar com cuidado as asas para secá-las no intuito de ajudar o sol. Espera para certificar-se que a pequena efeméride conseguira livrar-se do peso excessivo de suas asas e que em breve levantaria vôo novamente. Toma então o caminho de terra que o leva de volta a sua casa.
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Lindo...
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